A Leveza da Terra
15/10/2026 – 17/10/2026

O projeto A Leveza da Terra nasce da admiração pelo devir, da fascinação pelo jogo entre potência e ato, da certeza do encantamento produzido pela observação do movimento, que é, irremediavelmente, uma dança entre contrários.

Leveza e peso movem-se e dançam como Tomas e Tereza, de Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser, jogando com as suas contradições e possibilidades. Na cerâmica, o peso do barro encontra a leveza das mãos das artistas: a matéria bruta toma forma, resiste e cede, ocupa espaço enquanto expõe os seus vãos. Os quatro elementos atravessam todo o processo. A terra, feita argila, ganha corpo com a água, que a torna maleável; essa mesma água entrega-se ao ar, evaporando lentamente durante a secagem e aliviando a peça; por fim, o fogo do forno transforma a terra seca em cerâmica, num gesto irreversível. Da potência do barro cru ao ato da peça cozida, o ciclo devolve-nos à admiração.

Esta exposição é o resultado de um mês de residência artística, durante o qual os nossos ateliers se tornaram um campo de ensaio onde oito artistas investigaram o tempo, o espaço, o vestígio e a forma. Gestos, culturas e ritmos diferentes encontram-se neste território comum, onde cada obra nasce de uma relação particular com o peso e a leveza, a potência e o ato, a argila e a obra. 

Diana Santos encontra leveza na repetição. No seu livro, construído com folhas de paperclay, formas e cores acumulam-se e transformam-se, e o gesto repetido convida a folhear o movimento de libertação da matéria.

Joana Aleixo desafia os limites físicos da cerâmica, tornando visível “uma força que nasce da sua fragilidade e uma leveza que surge naturalmente da coexistência entre as duas”. As suas placas finas aproximam a matéria do movimento e da dança.

Kimie Ino inscreve o tempo em gestos: entre a partida e a chegada, o tempo ganha espaço e o percurso torna-se presença.

Krishma Waheed mostra-nos que, entre o dentro e o fora, habita a leveza daquilo que permanece. Nas suas conchas, a matéria mantém a forma enquanto lentamente se desfaz em pó e areia, fazendo do vazio presença.

Ksenia Fokina afirma que “depois de atravessar várias transformações, o coração eleva-se no ar para cumprir a sua missão”, e conduz-nos à experiência dessa elevação.

Magdalena Lorca apresenta o vestígio que surge entre a presença e a ausência. As marcas de manifestações e protestos tornam visível o que foi deixado para trás e perguntam: o que se revela quando algo se oculta?

Mariana Golin Silva faz-nos crer que a leveza se revela no intervalo entre o que passa e o que permanece, onde a matéria se transforma e transcende o próprio peso.

Sofia Condeço convida-nos a girar com a sua casca de caracol: “gostava de voar como os pássaros, mas, destinada a ficar por terra, aguardo que me levem pelo vento”.

Em A Leveza da Terra, a terra contém o desejo de voo: pesa e eleva-se, é movimento que permanece enquanto se desvanece. Desde a conceção do projeto, a leveza não significa ausência de peso, mas a possibilidade de o transformar. É a presença que nos une e o sentimento do devir que levamos connosco.